Verbos Curtos - Humberto Fonsêca & MaicknucleaR

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Estudo Literário - Devolva Meu Lado De Dentro & Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem - Autora: Sinhá

Rarefeitos Imbitubianos

Apresenta:
  O prazer que escolhi esses dias em dar uma lida, como se diz aqui no sul "lida" é trabalho, na sina de escrever algo intimista e provocador, ou que chegue perto dessas introspecções, devorei os livros "Devolva Meu Lado de Dentro" & "Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem", de autoria de "Sinhá", poetisa, grafiteira, perturbadora dos pensamentos urbanos em palavras e diversos cantos da cidade de São Paulo com suas pinturas, do qual vocês se tiverem a paciência podem conferir este misto literário-poético aqui no blog abordando um pouco do seu trabalho inefável e violentamente lindo sob minha pobre ótica construtiva e muito subversiva.


#BOALEITURA



Humberto Fonseca






 
"Você,

É a corda,

Que falta,

No meu violão".
 
Humberto Fonseca
 

  Falar de poesia em meio as catástrofes sempre foi uma habilidade tortuosa para aqueles que diferem suas palavras para desmembrar os pensamentos dos rótulos e sacrilégios inovadores das artes e culturas.



  Assim começo após ler os primeiros versos do livro, tilintando o sabor frio do sul no calor das palavras cruas, ríspidas, inteligentes, e descritivas. Temos uma autora que esquece a emoção pela razão sem deixar-se levar pelo contentamento, transpondo o elo original da palavra ao seu uso comum e senso intelectual disperso, onde a naturalidade é sua maior ambição.

  Nada melhor do que ter em mãos um livro de autoria independente, digamos desses novos poetas "ao público", no nosso caso, uma poetisa, descomunal no estilo sensorial de viver, na captação dos sentidos, na transformação da rua em pequenas construções, em ladrilhos laminados de cor, paixão venenosa, da qual poderia dizer claramente uma paixão violenta, sem escrúpulos ao colocar as veias nos punhos que riscam as folhas, já que a mesma não mede palavras aos seus esforços em nos dizer o que sente, é a verdade sem que obscureçam, ela dilata qualquer estilo ao manter sua força feminina, sua atração pelo conhecido e principalmente pelo desconhecido.

  Quando pensamos em poesia urbana o que temos é um pensamento sobre a "Poesia Concreta", com um pouco de Realismo, onde o Romantismo perdeu a sua divindade devido ao seu teor forte e concomitante de vidas invasivas, ostentações, hierarquias falidas, objetos destituídos de uma arquitetura contemporânea, sujeira de palcos esquecidos, onde a rudez e sentido bruto lapida qualquer sensibilidade que se torna hostil ao comportamento da cidade e das pessoas.

  Atualmente vivo num digamos "campo-litorâneo", e posso afirmar que o que mais me incomoda certas horas é a ostentação de um tal life style, de pessoas que pregam a sustentabilidade, mas não conseguem largar essa ostentação ao poder, esse gosto de parecer diferente das pessoas das cidades, ao dizer ou pensar que porquê você vive próximo a praia é capaz de destruir menos o planeta, de tratar melhor as pessoas, tudo mentira... TUDO MENTIRA!!! Ser mais amigo que a galera que se tromba nas ruas, de saber o diferente, enquanto pensam que todos somos iguais. A vida na cidade é sim estressante, mas se você tem a capacidade de admirar a beleza da natureza, também terá a beleza de notar a cidade, seus viés, pontos turísticos, já que na maioria das vezes, as cidades turísticas nem pontos tem, ela tem de ser o próprio turismo, ter um povo amplamente qualificado em dividir seu cotidiano, ensinar suas culturas, equilibrar as diferenças, distribuir e aprender conhecimentos, e nesse ponto de vista, as cidades nos proporcionam uma vivência habitual inovadora, com ciclos permanentes e totalmente evolutivos, é preciso estar aberto a qualquer tipo de diálogo e principalmente, sentir de perto as contradições, ou como escreveu um grande mestre da arquitetura: "A paisagem é objeto de mudança".
 

o centro de são paulo


cava feridas no centro


das memórias.


me periga, me perifa


à margem desse centro calado,


xinga carne.


tantos dias não me preparo pra sofrer,


não me preparo pra cê, ser.


agora, corro todos os seus quilômetros


atravesso muros


e fronteiras calçam nossos passos.


tropeço,


meus pedaços pelo chão


e você construindo sua casa,


edifício pesado.
 
Sinhá
   
 Deliciar as palavras e invadir os pensamentos são sua grande arma protetora, ao provocar sensações imersas de desejos que em nós costumam estar submergidas. O alto teor sensual e composto de lúcidos contrastes de sua alma nos seduzindo a imagem de nossos pensamentos sobre suas palavras, revela para mim nos versos o quanto estamos deploravelmente perdidos em compor a poesia com um instinto além do corpo, e sempre concluindo, "se saí do corpo, para o corpo deve voltar", expulsar os menores detalhes para as grandes ocasiões, torna-se cada dia uma experiência difícil, esquecer as grandes ocasiões pelos pequenos detalhes... O neologismo sempre fora meu forte na escrita, mas não tive como esconder esta acentuação, até porque a poesia de Sinhá não é uma ambiguidade, que nos leva a pensar coisa do mesmo sentido para ambas palavras, ela está mais para Ferreira Goulart, "rabisca tenuamente cada sentimento com força para concluir em explosão seus versos", em seu silêncio comporta um espírito aventureiro de uma "paz em guerra, de uma guerra em paz", sem acordo pelo pensar, tomando a medida precaução de que sua literatura resiste aos impactos de sua maior inspiração, as pessoas. Sua atração pessoal em concluir este vínculo natural, a cidade, o mar, ou tampouco a vida urbana como algumas pessoas citam em seu livro é apenas um complemento de todas essas ações em conjunto com a vida.

 _ Lembrando caro leitor, que isto não é provocação, crítica, ponto exigente, até porque este é o nosso mundo moderno, capaz de ligar diversos pensamentos sobre a arte, e principalmente, abrir o diálogo, uma pequena visão deste poeta mínimo entre o pós moderno e o contemporâneo dos menores e maiores escritores.
 




queria caber dentro de uma caixa,

queria que todas as minhas coisas

coubessem dentro de uma caixa,

queria ser pouco, queria ser menos,

mas já me espalhei tanto

que todo lugar me tem.

Sinhá
 
 
 O ser humano hoje em dia anda desvairado de sentido ao permitir ser tocado de amor. Em seu fundo, ou naquilo do que possamos chamar de alma, seus sentidos desejam encontrar, viver, equilibrar os desejos, ambientar as virtuosidades, correr do que chama-se encontrar um amor, o seu espírito e coração anda muito cheio de ilusões, enamorado de todas vicissitudes que o universo conspira em nossa vida acabamos correndo de poder compreender o coração. Tudo hoje em dia nos leva para a condição de "usar e ser usado", em expressar a simbologia dos ardores momentâneos, com essas atualidades de ostentações sem abreviações, seja ela no plano financeiro ou baixa-mente sexual, a nossa juventude perdeu o romantismo há muito tempo, e dificilmente se recompõe esse estímulo em ter no pensamento a força de encontrar um amor e poder vivê-lo com as mais puras ondas sentimentais. A poesia acima me deixa empregado o direito de se guardar com essas caixas, de ter no mais alto grau de intimidade um sentimento verdadeiro, onde possa em algum momento se espalhar por todo lugar. Assim é o amor, ele transborda suas emoções e contagia, seja pelo amor de um animal do qual você pode ajudar, o amor a um ente querido, o amor de alguém que você realmente quer ao seu lado todos os dias como em um daqueles filmes de cinema, ou simplesmente, um dos amores que todos nós podemos assumir ao encontrar aquele amigo que te entende com um olhar, com um toque, com um abraço, onde as nossas verdadeiras razões para amar estejam amplamente seguras e intocáveis de pessoas que não possam chegar nem perto de nossas caixas com seus olhares invejáveis, suas palavras e subterfúgios de negatividade, e onde somente nós e aquela pessoa que merece possa sentir um pouco, ou tudo deste amor. Mas a poesia vem pra espalhar tantos sentidos, que de repente outra pessoa que a leia, imagine que ela esteja guardando passagens para diversos lugares do qual deseja ir, ou simplesmente, sabe em seu sentido poético por completo, que suas palavras a levam além-mar sobre um mundo indefinido de pessoas e corações dispersos de todas as emoções que sentem sem saber, sem imaginar, sem ter como apalpar o que está dentro destas caixas, há não ser, tentar rabiscá-la para que com o barulho de riscos, traços, letras, outros sentimentos, possamos compreender e viajar na poesia capaz de estimular os desejos distintos, belos, quentes, e sensíveis.
 

eu estava dentro de uma garrafa
e ele chovia em mim.
torcia seu corpo cansado
que enchia tudo em volta
até a boca.
mergulhada
no seu resto
seca do meu ar
fiquei ali
sem quase nada
de tudo
que ele
levou.                                                                                                       
cada vez que me olhava,                                                                         
roubava um pouco minhalma.                                                        

Sinhá




"Como suas palavras com os olhos,
Quantos saberes,
Desfilam máscaras,
 Caindo do coração"
 
Humberto Fonseca




  Eu consegui fazer parte de um momento da poesia paulistana onde o valor do qual empregávamos era o do movimento, como o modernista, a literatura feita pelos escritores no momento da poesia pau-brasil, concretista, enveredávamos pelos conceitos das vanguardas, pelos sentidos dos quilombos, pelos termos dos nordestinos, seus imigrantes, São Paulo como um dos expoentes mundiais e sua cultura ilimitada devido aos habitantes naturais, com a sua história de revolução metropolitana, capital dos maliciosos e inocentes, transformam pequenos movimentos em verdadeiras articulações ideológicas, pois, em um lugar com tanta diversidade cultural, ideológica, artística, não sabemos o que realmente pode acontecer com o que se desenvolve em meio aos brejos da periferia, nos ladrilhos velhos das antigas ruas do centro, ou até mesmo na badalada Vila Madalena. A poesia paulistana não tem fronteiras, obstáculos, ela simplesmente rompeu o elo da Casa Das Rosas, e tornou-se uma arma que vai muito além da Avenida Paulista, reduto este de encontro do gênero poético do Espaço Haroldo de Campos, a cidade e sua poesia concretista, realista, assim como outros tantos escritores de seu tempo do qual eu não quero citar, pois estou situando aqui um dos gêneros literários mais difíceis de serem explanados, em seu sentido, buscando no íntimo da minha própria poesia da qual também parece ser muito fácil de ser escrita, mas quem faz poesia sabe, que poesia sem sentido é apenas um blefe de falsos e palermas escritores, poesia de verdade é revolução, movimento, entendimento de vanguarda, luta celestial de quem sabe impor seu poder com as palavras para atender o desejo próprio, de mostrar os pensamentos geniais, ou os protesto rápidos e diretos, como a poesia paulistana adaptou em seus saraus, encontros literários, e um ciclo de escritores do qual sinceramente não quero falar, pois são tantos, antigos e modernos, e muitos amigos que vivos hasteiam a bandeira que vem revolucionando com encontros, saraus poéticos, debates sobre as mais diversas artes, sendo a literatura marginal uma verdadeira oposição e consolidação desses opositores das belas artes e dos encontros acadêmicos, e ao mesmo tempo participando ativamente para ser significativo no presente com todas essas funções de articulação, e ainda por cima ser atuante com a poesia na rua nos faz viver intensamente a produção própria e todo conhecimento que os mais variados poetas e escritores estão desenvolvendo nas ruas, e eu como mais um desses poetas marginais, ando sempre atrás dela, da difusa, singela, e de sua incomparável poesia... _ Não é mesmo Sinhá?

 
Rua...       
     
Termo de tantos sentidos,

Morada de tantas pessoas,

Casa de infelizes, ou não.

Podem ter esquecidos suas verdadeiras casas,

Fazendo das ruas, suas moradas.

Rua para mim é rua, é frio, é calor, é chuva atemporal,

Emoção, solidão, movimento, o inesperado que me inspira,

Ser, ver, viver, sentir.

O poeta não consente, cala apenas,

Por uns instantes não pensa mais,

Afinal, pensar não é uma arte, para ele é uma estética,

Sabe bem o que fazer,

Pois, o chamado é outro,

A rua o chama.


Humberto Fonseca


 A rua em meu estilo poético é uma rima feita de simbioses. Estados que anseio vivendo, é um alimento necessário do qual não preciso ter em meu prato, mas ao mesmo tempo preciso, seja vivenciando, virando palmos em esquinas fortemente sobrevivendo com todos os sentidos. Meus ares poéticos nada somam perto da poetisa com poder rarefeito, imergindo nas palavras suas, em poesias constantes e solitárias no meu interior exumando ardências capaz de fazer sentir o toque na pele, o cheiro do verso, aromas da saudade, calor da sexualidade, a transa indefinida de chocar os corpos, corar com calor do sol, sentir esvoaçar a poeira em cada canto de esquina. É como se um filme violento, sangrento, em batalha pela vida ou entregue ao desvelo de se ter a proximidade dela viessem ter um diálogo sem confrontos, ao olho nu podemos antecipar as cenas, observar a morte e a vida sentarem para um café, chazinho de fim de tarde enquanto "jogam damas, baralho, dominó, xadrez", para decidir qual fim melhor sua vítima merece, no caso de Sinhá, seus sentimentos, pensamentos, através das palavras, já que não posso chegar próximo ao corpo'escrito, com esse vasto espaço sobre as nossas diferenças poéticas, só posso sentir, provar os efeitos. Raramente fico confuso ao ler poesia, e muito pouco com prazer em desfolhar as palavras, diria neste caso, arrancar as vestes dos peixes de hoje, de ontem, e de amanhã, saborear o sushi nu e cru ao molho shoyo, em pequenas porções, sendo as palavras colocadas em nossa boca por uma sushi-girl que sabe as medidas de cada uma, de corte afiado e mãos quentes, quebrando os protocolos de qualquer geração.



que horas são?

 que horas são?

 que horas são?


 repetidas vezes,

em voz alta

coração

coração.
 
é que o tempo é amor.
é que o tempo quer amor
é que o tempo vira amor.
Sinhá
 
  
 Sabes dizer o que é a palavra leitor? Creio que sim, mas com ajuda de dicionário. São tantos entendimentos e origem de uma só palavra... Compreender as poucas usadas em sua poesia, procurar suas diferentes versões de entendimento, sujeitos e predicados, passados de presente e futuro, desde o latim a gerações futuras com Sinhá seria um "desvario'elétrico", baques de pé, manifestações internas que se prever no olhar, nesse tão sonhado olhar, ilustrado de tensão carnal, voz súbita de dor com alegria, revolta entendida e capaz de soprar manifestação, me faz saltar as linhas com promessa de voltar logo ao mesmo poema, tento desgrudar um verso que cola nos meus sentimentos, em coisas que pensei muitas vezes ao andar pelos lugares mais belos, devassos, bizarros e históricos, mas que sinceramente, nunca consegui escrever, traz-me felicidade de estar em alguns momentos poder revisitar memórias perdidas, esquecimentos que lembro, palavras sujas ao vento que meu corpo sentiu.


Trabalhas a poesia com dor\Um'amor/Ardor'Ardência


Roendo\Todoetudo/Queémúsculo,


Nervos\Nêuras/Choques'cerebrais,


Liga'o'sentido,

Nesse\Cortéx/Sexy

Só teu,

Todo teu...
 
Humberto Fonseca
 
 
 Eu simplesmente não sirvo para estudar um livro. Desejo vivê-lo em meu interior, enaltecer a luta dentro do meu corpo e suas avalanches verbais. Comigo as palavras desenham a vida, não existe adaptação. Tenho prazer naquilo que me inspira, que me faz expirar, que me faz reviver, reatar, refazer forças, levantar almas e ajudar corpos, "Devolva Meu Lado De Dentro" segue essas rubricas em meu pensamento, grifa o que é verdadeiro em meio as torrentes de cada dia da qual temos como barco uma simples caixa de fósforo para se jogar da cachoeira mais alta, sem esperar o que vai se passar, sem saber se iremos ou não sobreviver, mas como a vida é sempre vida, nós devemos descer as ribanceiras momentâneas para abster-se de emoções, revoluções, alimentar as revoltas, de ser solidário sem querer nada em troca, ou simplesmente virar as costas para aquilo que não nos interessa, assim é a poesia urbana, ela colhe pra depois plantar, sabe que em terreno de concreto as enchentes são mais variáveis que os dias secos, e que em exatos trinta minutos de conversa as águas banais pode descer dos mais infinitos céus para tudo se perder. Poesia é descrição, é situação, é a comparação orgânica de tudo que nos motiva aos meios eletrônicos, e mesmo sendo esta impressa ainda carrega consigo o velho e bom momento da produção diária, da composição inesperada, das silhuetas que transformam sínteses, e de abstrações tão concretas que são capazes de quebrar as barreiras das nossas agonias.


seu cheiro de uva pisada
me afogava junto às peras
bêbadas,

desfalecidas,
não alcançávamos
a borda da tijela
trincada dos anos.
você brincava de mergulhar a colher
no caldo vermelho.
a tempestade
batia nossas cabeças,
minha e das peras.
na cerâmica amarela.
e a gente ali,
com o corpo-esponja-de-vinho
esperando só
sua boca.

Sinhá
 
 
 
 O senso inesperado, o rito evolutivo, é o permeio de um ventre em processo contínuo que se abriga as formas, embarga os prazeres distintos e liberta os mais levianos, ferve as ondas cerebrais. A poesia supera muitos estados da literatura por utilizar além das temáticas as diferentes formas de versos, os compassos intuitivos, as músicas da palavra, os sons tônicos "entoado-no-entre-cortar-de-tempos", sumariamente versada na vida cotidiana, do campo, perímetros mentais ou urbanos compõe sua evolução simbológica em cada estrofe permeada, perene, de figurativos vivos, imagens mortas, e paisagens tonificantes em sopros universais da nossa condição cognitiva.




eu estava dentro de uma garrafa
e ele chovia em mim.
torcia seu corpo cansado
que enchia tudo em volta
até a boca.
mergulhada
no seu resto
seca do meu ar
fiquei ali
sem quase nada
de tudo
que ele levou.
cada vez que me olhava,
roubava um pouco minhalma.

Sinhá
 


  Ler, entender, produzir poesia não é nada comparado a um livro, um romance, pois a maioria dos poetas, acredito eu, eles tentam trabalhar nesta ebulição os traços, ou coragens mascaradas ou explanadas de sua verdades, do que pensariam em passar para seu leitor. A poesia é contraditória, surreal em alguns limites, mas nunca deixa de se estender a vida de cada um, não nos obriga a entender o autor, mas senti-lo de perto, ter suas aspirações correndo da leitura aos ouvidos, dos ouvidos ao corpo, do corpo para o instante vital em que nos encontramos é saber lidar com tatos sensoriais, e quem conhece essas técnicas literárias consegue experimentar cada uma delas, mobilizar pensamentos ou fazer corpos correr para longe de si, mesmo tendo na mente que "um corpo celeste brilha, para cada apagar de pensamento", ou em fluência direta sobre nossas estantes lotadas de coisas velhas que precisam serem renovadas, nem que seja por alguns instantes esses focos de luzes nos faz perceber o quão indiferente e duros estamos com nossos próprios momentos precisando de uma tacada exterior para abalar nossa neura-transmissão.

  Poesia não é só a beleza de um entardecer em um pôr-do-sol, mas pode ser a raiva fulminante da escrita que evolui para estancar uma dor. Quando escrevo é sempre pra libertar algo que está percorrendo meus dias, atravessando, atrofiando minha mente, perseguindo meus distintos e inveterados pensamentos, vivos ou mortais. Esse veneno poético do qual simpatizamos em nossas vidas acaba nos curando, sendo o nosso antídoto contra as tribulações diárias. Mas ter esses versos nas mãos impressos me levou a ter um senso mais crítico do que sensível, é que tenho andado tão sensível quanto uma velha de TPM, e sendo mais criticado do que pode ser a própria crítica, sintomático de vaidades perplexas sobre coragens neutras, e como vi uma amiga escrever esses dias: "fazer fofoca é fácil, mas opinião é tabu", tenho tentado contar palavras, guardar minhas opiniões que aos ouvidos almofadinhas parecem farpas flechadas em ouvidos sensíveis demais para o conhecimento além do seu, escolher cada palavra minuciosamente, para um poeta é difícil, momentos onde a relação interpessoal não me deixa ter a paciência para exercer o meu lado de fora, e toda reação tem uma reação, mas quando se conversa com uma pessoa que se dedica a escrita, por mais sem sentido que seja ou autocrítico como eu, pode esperar as mais variadas ideias, já que escrevendo consigo entender o título "Devolva Meu Lado De Dentro", ainda vos digo leitor, que de dentro, devolvo todos meus lados como um labirinto, do qual meu único intuito é tirar-te dele.

esse sujeito que determina.
seu estado de sofrer ações,
como coisas que acabam

e ainda deixam sinais de vida.
em seu peito frio,
o sangue que corre
gela meus olhos,
agora cegos,
em suas cores.
 
parecia que estava
sendo vista
pela primeira vez.
Sinhá
 
 
 Temos em seu segundo livro um amadurecimento da escrita, uma neutralidade de tons silábicos que desfilam sinuosamente em viés da verdade, e como diria Nietzsche; "Mas afinal, porquê sempre a verdade?", com essa delicadeza bruta e instintiva me leva creditar que no momento em que vivo comprei os livros certos, não era um momento de libertação, de estresse, de conhecimento próprio, mas sim, de ter próximo da mente ideias que fossem contrárias a tudo que estou e ando vendo, porquê é tão difícil encontrar a verdade, até mesmo em palavras? Ou será que sinceramente as pessoas não andam vivendo ou tampouco querendo escrever sobre ela? Essa valorização burguesa pela ficção e molduras de histórias de outros mundos continuam permeando as nossas evoluções, como seres humanos capaz de conhecer a resistência, por manter ou dividir as esperanças, ou será a real luta de senso, sentidos, e obrigações de conhecer as mudanças sem desgraçar seu caráter? _ Dá pra ver que a luta por aqui não tem sido fácil... Mas eu continuo acreditando e pregando a verdade. Sofrendo avarias diárias, tombando, caindo, derrubando também os mitos que me perseguem, já que os mitos não sobreviveram aos seus tempos, como podem eles viver nos meus? "Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem" entrou na minha concepção dessa quebra de mitos, como uma couraça que os antigos nordestinos usavam para adentrar nas caatingas descrita por Euclides Da Cunha, onde a força do homem do litoral é descrita em suas diferentes formas de adaptações para a vida. E sinto como se estivesse cansado de adaptações, o mundo tem feito nos adaptar tanto para que esqueçamos nossas origens que finalmente ou evoluímos ou partimos para as brenhas do além, para o caos babilônico das cidades, onde de certa forma, podemos entender essa megalomania sem fim.  E mais, adaptar-se a um mundo, ideia, política, personalidade, não quer dizer que você vai perder, anular, sua verdadeira origem.

  Esses sentimentos de típico "anti-herói" correndo na minha mente, de certa forma faz sentido para quem possa um dia ter o meio de vida mais pleno e sustentável do planeta sem nunca esquecer da simplicidade. Simplicidade pra mim é comodidade. Comodidade é ter casa, comida, cama e uma companhia pra aquecer as noites escuras, meio-tom, iluminadas, frias e quentes. Existem tempos quem que parecemos confusos, mas pode crer que não, você pode estar rodeando de pessoas confusas que desejam ver-te no embalo desses pensamentos, desacreditado de todas causas e soluções por pessoas que sinceramente caro leitor: _ Nunca teve causa ou solução nenhuma. Em uma sociedade que se compra respeito nunca existirá vergonha. E em uma sociedade que não tem vergonha nunca existirá respeito. Se tu fores um ser humano verdadeiro em meio a esse caos pessoal pode ter a certeza que vão induzir de todas as maneiras a tua perdição, sedição, tuas causas serão apenas justifica de debates, nunca de uma opinião verdadeira para uma significativa mudança. Por essas e outras empunho a poesia, rasgo meus versos, procuro inspirações de quem em algum sentido me passa as mesmas diferentes ideias.

os calafrios percorrem seus quilômetros
até parar naquele abismo,
ali, do pescoço ao ombro.
aí esmurra, pontada na barriga.
tenho barriga pra sentir dor e frio.
me sinto quebrada,
tenho partes quebradas
e nunca me vi vendida em prateleiras
nem tão pouco em casas de conserto.
adoeço toda vez que me esqueço
e falho toda vez que vejo.
depois de agosto,
no segundo dia,
a atriz de si acorda sua sexta-feira,
num palco esquecido.
aquele momento ainda dói
porque cedo foi
e rasgou cortinas
como cabelos
embaraçando as vontades.
Sinhá
 

 
 
Posso estar voando em pensamentos, "e nunca me vi vendida em prateleiras/nem tão pouco em casas de conserto", conduz as palavras que estava escrevendo, em simples dois versos ela assassina toda uma concepção que penso do momento atual do mundo, da vida, das pessoas, em particular (da minha pessoa). Dispenso, despeço citações para os tropeços dos quais tive que me libertar sem consertos, e que inevitavelmente consegui aprender com o violão, minhas palavras faz construir meus próprios concertos, sinônimos musicais contra inimigos que não sinto nada, brevemente nada... E quanto mais nada tu puderes sentir por eles estarás liberto. Sabemos o quanto maior somos quando damos a tapa a cara, quando encaramos nosso oponente não pense que só nós podemos ter medo, mas eles também sente o gelo na espinha, e uso a técnica do "use um ataque para explorar uma vitória, nunca use um ataque para se recuperar de uma derrota", e com essa febre-do-rato nordestina que carrego sobre a convalescência freudiana posso analisar meus oponentes, possíveis inimigos enquanto me perseguem calmamente, sou mais frio e cauteloso do que calculista, afinal, a vida de poeta também pode ser declarações de guerra, fúria em rua, versos dirigidos em alta velocidade para chocar qualquer parede que deseja obstruir a nossa passagem, e que devemos saber, se estais no campo de batalha, no ring, ou sobre o tablado, um certo medo vai estar do outro lado, aí você deve saber que o mais sábio é "use o intelecto sobre a força", esgotamos essas nobres torpezas perseguidoras simplesmente ao ser diferentes, pois todo poderio e eficiência de nossos perseguidores é de  impor em suas posturas uma visão e poder de em algum momento nos tornar iguais a eles.
a água que traz de todos os mares
salga minha boca,
agora o pixo cobre a pele.
os peixes assassinados
ainda respiram poucos
olhos que brilham mortos.
leio notícias do jornal de ontem
pra que gastar dinheiro com notícia nova?
é tudo a mesma rocha.
imóvel.
o peito seca o coração que come
a vida em riste
desata a fome
solfejo triste
o que se consome
rompe
demasiada fome
alcanço insone,
me some.
luta vã
todas as bombas
cairam aqui
no porão chapado
no sangue calado
o que mata,
é você, poeta.
 
Sinhá
Sem Ar...
  
Sem peixes,

Sem vestes,

No meu eu de hoje,

Se fosse ontem,

Os dias estariam simplesmente confusos.

Mas hoje é hoje porque há de haver o amanhã,

Mas se não houver faço meu hoje por valer.

Eu devolvo,

De dentro,

As palavras,

Do meu lado,

De fora.

Ludibriado pelo assassinato sumário,

De dicionários cheios de palavras sem sentimentos,

Faço a química de meu corpo espalhar meus amores.

Diverso, inverso, sem recesso,

Como as frases,

Tenho fome de dores, tenho fome de alegrias,

Tenho fome de uma fome que não me consome.

É a poesia,

A minha forma bruta,

Sempre de ser eu.

 


Humberto Fonseca
 
 
 

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